Recentemente, Matt Damon e Ben Affleck marcaram presença no podcast “Joe Rogan Experience” para promover seu novo trabalho. O que deveria ser apenas uma conversa promocional, no entanto, acabou abrindo as cortinas sobre como as grandes plataformas de streaming, especificamente a Netflix, estão influenciando diretamente a escrita dos roteiros em Hollywood. Segundo Damon, a forma como consumimos conteúdo em casa alterou fundamentalmente as exigências dos estúdios.
Damon, Rogan e Affleck debateram longamente sobre a experiência insubstituível do cinema, algo que muitas pessoas deixaram de vivenciar. Para o ator, assistir a um filme em casa muda completamente o jogo: as luzes estão acesas, as crianças correm pela sala, o cachorro late e há uma infinidade de distrações competindo pela atenção do espectador. “É um nível de atenção muito diferente daquele que você está disposto ou apto a dar no cinema”, explicou Damon. E essa mudança de comportamento não passa despercebida pelos executivos.
A morte do suspense e a repetição do óbvio
O impacto dessa nova realidade atinge tanto o orçamento quanto a narrativa. Damon revelou a Rogan que a estrutura clássica de um filme de ação — geralmente composta por três grandes sequências, com o clímax e o maior investimento financeiro reservados para o terceiro ato — está sendo virada do avesso. Hoje, a ordem é capturar a audiência imediatamente. “Agora eles perguntam: ‘Podemos colocar uma grande sequência de ação nos primeiros cinco minutos? Queremos que as pessoas fiquem'”, contou o ator.
Mais surpreendente ainda é a admissão de que a complexidade narrativa pode ser vista como um obstáculo. Damon compartilhou que os estúdios sugerem, sem rodeios, que não seria má ideia reiterar o enredo três ou quatro vezes através dos diálogos. A justificativa é pragmática e um tanto desanimadora: o público está no celular enquanto assiste. Ben Affleck, adotando uma postura mais analítica, ressaltou que se trata de uma questão de oferta e demanda. Se as pessoas querem dividir a atenção com o smartphone, elas o farão, restando aos cineastas a missão de entregar o melhor produto possível, independentemente das circunstâncias.
A repercussão nas redes sociais foi imediata. Usuários expressaram frustração com esse estilo de roteiro “mastigado” típico da Netflix, enquanto outros admitiram que o hábito de “segunda tela” é real. Um internauta chegou a relatar que tentou assistir ao clássico “Duro de Matar” com amigos, mas eles passaram o filme todo fazendo tarefas domésticas e olhando o celular.
“The Rip”: A teoria na prática
Coincidência ou não, essa discussão serve como pano de fundo perfeito para analisar “The Rip”, o novo thriller policial dirigido por Joe Carnahan e estrelado pela dupla Damon e Affleck, já disponível na Netflix. O filme, ambientado em uma noite enevoada em Miami, acompanha oficiais da narcóticos que encontram uma casa usada por um cartel para esconder dinheiro. O tenente Dane Dumars, vivido por Damon, estima haver 150 mil dólares escondidos nas paredes, mas a quantia real ultrapassa os 20 milhões. O que seria uma apreensão rápida de sexta-feira se transforma em um cerco iminente onde a confiança é artigo de luxo.
Apesar do elenco estelar — que conta ainda com Teyana JSON e Steven Yeun — e de um orçamento robusto de 100 milhões de dólares, “The Rip” parece lutar para superar a mediocridade, servindo quase como um exemplo das limitações criativas debatidas no podcast. Para quem não é fã ardoroso do gênero criminal, o tom sério e pouco inspirado pode levar rapidamente ao tédio, seguindo à risca os velhos tropos de filmes anteriores.
Entre clichês e atuações de peso
Embora a produção de alto valor e o elenco despertem curiosidade, a trama acaba se perdendo em um emaranhado de clichês. O filme tenta seguir o caminho tradicional do gênero, incluindo a reviravolta final obrigatória e subtramas dramáticas que, muitas vezes, parecem desconexas. O personagem de Damon, Tenente Dumars, carrega o arquétipo do “policial problemático”, lidando com a perda traumática de um filho para o câncer. Ainda que esse pano de fundo faça sentido no contexto, ele empurra o thriller para um território excessivamente sentimental.
A inspiração para o longa veio de uma história real: um amigo do diretor Carnahan, policial em Miami, encontrou uma grande quantia de dinheiro em 2016. O diretor também bebeu da fonte de clássicos policiais, evidente na inclusão do tropo do “policial corrupto” encarnado por outros personagens. No entanto, mesmo com essas referências, o filme não consegue se distinguir dentro do subgênero. Os vilões, por exemplo, parecem desconhecer o próprio plano e são superados com facilidade, diminuindo a tensão.
Outro ponto crítico é a subutilização das personagens femininas, as detetives Numa Baptiste (Taylor) e Lolo Salazar (Catalina Moreno). Enquanto os homens participam da ação e desvendam o mistério, elas são literalmente deixadas de lado em uma sala apenas para contar o dinheiro, demonstrando competência apenas nos momentos finais.
Apesar das falhas estruturais, “The Rip” não é um desastre total. As atuações de Damon e Affleck conseguem elevar o material, entregando um thriller intenso e de ritmo acelerado. É possível simpatizar com o drama de Dumars ao mesmo tempo em que se desconfia de suas intenções. Para os aficionados por filmes policiais, é uma adição válida ao catálogo. Mas para o espectador médio, que talvez esteja mesmo dividindo a atenção com o celular como previu a Netflix, o filme cai no barril da mediocridade: entretém, mas não deixa marcas.