A nova produção da Apple TV+, que estreou agora em maio, levanta uma questão que vai muito além do entretenimento de suspense: estamos diante de uma peça de hasbara — a propaganda oficial israelense — ou de uma crítica social ácida? A trama começa com aquela receita clássica que a gente já conhece: uma jovem desaparece em território hostil, a mãe precisa virar detetive enquanto lida com crises familiares e, claro, pessoas morrem e alianças duvidosas aparecem. O clima de tensão funciona, mas o que realmente separa essa série de qualquer outro thriller é o barulho que ela fez antes mesmo de chegar às telas.
Mesmo sem quase ninguém ter assistido a um episódio sequer, a internet pegou fogo. Por ser uma produção israelense, bastou o trailer mostrar a protagonista Gali (Ronn Talia Lynne) de farda para que contas pró-Palestina cravassem o rótulo de “ziopropaganda”. A premissa vende a história de uma israelense feita prisioneira pelo estado russo — uma Rússia bem ao estilo era Putin, diga-se de passagem. Curiosamente, o trailer e a série nem tocam no assunto Palestina ou na guerra em Gaza, mas a reação online mostra como o “filtro” sobre qualquer coisa que venha de Israel está saturado.
O ponto é que, ao mergulhar na história, percebemos que a série tem muito a dizer sobre o próprio mecanismo de propaganda do Estado judeu, tanto para consumo interno quanto externo. Quando Gali e sua mãe, Orna (Liraz Chamami), são detidas em Moscou sob acusação de tráfico de drogas — um eco direto do caso real de Naama Issachar em 2019 —, a narrativa foca na construção da imagem. Orna contrata um relações-públicas para “vender” o caso de Gali à mídia.
A estratégia é criar o arquétipo da “menina boa, de coração puro, que serviu ao exército como todo mundo”. A foto usada nos telejornais é justamente a que causa repulsa fora de Israel: Gali fardada. Enquanto em Israel essa imagem serve para comover e gerar empatia, no exterior ela acaba transformando a vítima em um alvo político. Para quem conhece Hatufim (que deu origem a Homeland), sabe que os criadores não costumam entregar heróis perfeitos. É uma hasbara estranha, povoada por personagens problemáticos que operam em zonas cinzentas, bem no estilo de Fauda.
O roteiro ainda se dá ao luxo de explorar o estereótipo do “israelense feio” no exterior. Grande parte da trama se passa na Índia, onde mãe e filha viajavam antes do incidente. Ali, vemos o comportamento caótico de turistas que ignoram regras locais, criam confusão em hospitais e templos, alimentando um estigma real que muitos israelenses enfrentam — e que faz com que alguns até escondam a nacionalidade para evitar assédio em outros países. Gali, com um sarcasmo afiado, chega a elogiar um boteco indiano interditado pela vigilância sanitária só porque serviram um javali atropelado. Não há santidade aqui; o que há é uma humanidade bem deformada.
Enquanto essa série israelense desafia percepções políticas, a Apple TV+ também joga alto com outra aposta: o retorno de Cape Fear (Cabo do Medo). Não é só um remake; é uma reimaginação de um clássico que já passou pelas mãos de Martin Scorsese. Com Scorsese e Spielberg na produção e um elenco de peso, a pressão é enorme. Javier Bardem assume o papel do ex-presidiário Max Cady, enquanto Amy Adams e Patrick Wilson vivem os advogados que se tornam o alvo de sua vingança.
O que o trailer mais recente revela é uma mudança de tom certeira. Em vez de focar apenas no thriller de vingança tradicional, a série abraça o terror puro. Max Cady não é apenas um psicopata com um rancor guardado; ele surge como um vilão de filme de horror, uma força que personifica os erros do passado dos protagonistas. Saem as risadas debochadas no cinema e entram os ângulos holandeses, o dolly zoom e diálogos sussurrados sobre uma trilha sonora perturbadora.
Tem até um jumpscare clássico envolvendo a filha do casal na piscina que já dita o ritmo da coisa. Se para a série israelense o desafio é sobreviver ao tribunal da internet, para Cape Fear o desafio é justificar sua existência em meio a tantas versões. Ao que parece, o caminho escolhido — o de transformar o suspense em um pesadelo visual — é exatamente o fôlego que essa história atemporal precisava para ser contada mais uma vez.